A obra Urupês, escrita por Monteiro Lobato, é basicamente uma série de quatorze contos, que nasceu da revolta do autor contra os sertanejos brasileiros, que segundo ele, eram responsáveis pelo constante incêndio nos campos, prejudiciais a um grande proprietário de terra como ele. Esse contos procuram dá ênfase a vida cotidiana do caboclo, através de seus costumes, crenças e tradições. As histórias que neles estão presentes se passam com frequência na região rural de São Paulo, em Itaoca e geralmente possuem um fim dramático.
O primeiro conto dessa obra é intitulado "Os faroleiros" e retrata a história de um faroleiro, o Senhor Gerebita que conta sua história ao companheiro, Eduardo, que aos 23 anos começou a trabalhar no farol e se apaixonou por uma bela morena, Maria Rita, que depois fugiu com outro homem, Cabrea. Tempos depois Gerebita e Cabrea se reencontraram em uma madrugada, em meio a socos e empurrões, Gerebita mata o companheiro alegando legítima defesa. Porém o motivo real deste assassinato foi o caso que Cabrea tivera com Maria Rita.
O segundo conto é intitulado "O engraçado arrependido". Retrata a história de Francisco Teixeira de Souza Pontes, conhecido popularmente como Pontes. Este homem até os 32 anos viveu às custas de sua veia cômica. Neste período começou a pensar seriamente em um rumo para tomar em sua vida e, assim, desistiu de contar anedotas e resolveu pedir emprego aos amigos que possuíam comércio, mas a resposta que ouviu eram inúmeras gargalhadas, pois todos acreditavam ser a última piada dele. Por fim, resolveu ocupar o lugar do major Bentes, que estava muito doente. Passou meses imaginando formas de conquistar a confiança do major para o golpe fatal. Foi com uma boa anedota que Pontes viu o major dá sua última gargalhada, já que não podia fazer tamanho esforço. Com a morte do major Bentes, Pontes não ocupou o cargo, mas dias depois foi encontrado enforcado com uma ceroula e até na hora de sua morte, foi vítima dos risos que provocara durante toda a vida.
O terceiro conto intitulado "A colcha de retalhos" conta a história de um homem do campo, que morava com a esposa, a filha e a sogra, numa casa simples, rodeada de plantas. Dona Joaquina, sogra de Zé, confeccionava uma colcha de retalhos, oriundos de cada vestidinho de sua neta Maria das Dores, apelidada carinhosamente de Pingo d'água. Essa colcha seria o presente de casamento de sua avó, mas todos os sonhos foram por água abaixo. A esposa de Zé, muito doente chegou a falecer, e Pingo d'água, moça tímida e acanhada, fugiu com um rapaz da região. Desolada, sua avó desejava apenas a morte, nos momentos em que olhava para a colcha inacabada. Tempos depois Dona Joaquina também faleceu, acredita-se que a principal causa de sua morte tenha sido a tamanha infelicidade que deixava transparecer com a decisão da neta.
O quarto conto intitulado "A vingança da peroba" discorre sobre a história de uma suposta vingança de uma peroba, que foi derrubada por Nunes, um cachaceiro que maltratava a mulher e suas filhas e ensinava ao único filho que um homem deveria se portar de forma rude e autoritária. A peroba foi derrubada para a construção do monjolo, como forma de vingança, porém Nunes não obteve sucesso na sua empreitada. Desolado com o que ocorrera, Nunes convidou Pernambi para beber. Embriagado o menino saiu estonteante e for encontrado morto debaixo dos escombros do que restara do monjolo, feito da peroba.
O quinto conto intitulado "Um suplício moderno" conta a história de Izé Biriba que recebeu o cargo de estafeta para ajudar o coronel Fidêncio a ganhar a eleição em Itaoca. Assim Biriba era obrigado a percorrer sete léguas todos os dias, montado em um animal. Devido o tamanho esforço, sua saúde foi sendo perdida aos poucos e resolveu pedir demissão do cargo. Tendo sido negada a demissão, Biriba resolveu se vingar, já que as eleições se aproximavam. Foi entregue a ele um 'papel' que garantiria a eleição do coronel, mas Izé Biriba se desfez da missão, fazendo com que o coronel Fidêncio perdesse a eleição. Dentro deste contexto, o autor faz uma forte crítica à política, que consegue disseminar um homem aos poucos. Apesar do avanço da democracia, o autor compara a crueldade dos tempos modernos ao período da inquisição, quando diz: "[...] A humanidade é sempre a mesma cruel chacinadora de si própria, numerem-se os séculos anterior ou posteriormente ao Cristo [...]"
O sexto conto intitulado "Meu conto de Maupassant" discorre sobre a história da morte cruel de uma velha. No início das investigações, o primeiro suspeito é um italiano, solto pouco tempo depois, por falta de provas. Porém tempos depois este italiano é preso em São Paulo, sendo conduzido de trem até o vilarejo onde acontecera o crime. Na viagem para o vilarejo o italiano se joga da janela do trem, próximo ao local onde a velha foi morta, porém seu esforço foi inútil, pois pouco tempo depois o filho da velha confessara o crime. Neste pequeno conto, o autor afirma que a vida é dividida em dois momentos, amor e morte. E é justamente neste momento que o ser humano não consegue usar nenhuma máscara, a ponto de esconder seus sentimentos.
O sétimo conto intitulado "Pollice verso" retrata a história de Inacinho, filho do coronel Inácio da Gama. Inacinho cresceu influenciado pelo pai a cursar Medicina, porém com o tempo passou a ver a profissão como um degrau para o enriquecimento e ao invés de estudar, apenas usufruía do dinheiro que seu pai dispunha para os custos com os estudos e com isso conseguiu enganar seu pai a vida inteira, já que desde criança Inacinho possuía uma espécie de dupla personalidade, que variava de acordo com as pessoas com as quais conversava.
No oitavo conto intitulado "Bucólica", o autor descreve uma paisagem bucólica e pastoril, enquanto discorre sobre a história de uma menina que morreu de sede, gemendo de dor, próximo de um pote d'água por não ter sido atendida de madrugada por sua mãe.
O nono conto intitulado "O mata-pau" retrata a história de dois homens que conversam sobre uma planta da mata, que cresce e ao enraizar-se, tomando o espaço das demais árvores, acaba matando-as. Em meio a esta história surge o trágico caso do casal Elesbão e Rosinha, que resolvem adotar uma criança. O menino, já crescido, tem um envolvimento com sua mãe e acaba matando o pai. Vendo os negócios que o pai possuía praticamente arruinados, o menino resolve vendê-los e sua mãe-esposa, que entristecida, acaba sendo internada em um hospital, enlouquecida.
O décimo conto intitulado "Bocatorta" conta a história de um negro feio e esquisito que morava nos arredores da fazenda do major Lucas, o Bacatorta. O major tinha uma filha, Cristina, que era noiva do primo Eduardo. Cristina adoeceu repentinamente e em dez dias o médico a desenganou e ela faleceu. Tristonho com a morte da noiva, Eduardo resolveu ir ao cemitério de noite e da grade, percebeu vultos e latidos. Voltou desesperado para a fazenda, gritou o major, que armado correu com Vargas, o capataz, para o cemitério, onde encontram Bocatorta seminu e debruçado sobre o corpo desenterrado de Cristina. Neste momento o negro foge e, após muita perseguição mata adentro, é morto, após ter dado o único beijo da sua vida.
O décimo primeiro conto intitulado "O comprador de fazendas" narra a história de Espigão, homem que possuía uma grande fazenda, mas encontrava-se endividado, pois a fazenda não mais dava lucro. Com isso pôs a fazenda a venda, surgindo vários interessados, porém um deles se destacou, Trancoso Carvalhais, um homem rico e bem apessoado, que passou uma semana na casa de Espigão e além de demonstrar interesse pela fazenda, também se interessou por Zilda, filha do fazendeiro. Uma semana após sua chegada, Trancoso partiu prometendo voltar com a resposta e pouco mais de um mês depois, sem obter resposta alguma, Espigão descobriu que Trancoso era um espertalhão que encontrava inúmeros pretextos para sobreviver às custas do suor alheio.
O décimo segundo conto intitulado "O estigma" discorre sobre a história de um homem, Bruno, que em uma noite chuvosa perdera-se e coincidentemente foi parar na casa de um amigo, dos tempos de colégio. Chegando lá, foi bem recepcionado, apesar de ficar intrigado com o aspecto mal da esposa de Faustão e admirado com a beleza encantadora de sua sobrinha, Laura. Após ter comido, bebido e descansado muito, Bruno resolveu seguir viagem e nunca mais apareceu nas redondezas. Muito tempo depois Bruno reencontrou-se com seu amigo Faustão, e logo perguntou por Laura, quando soube que ela estava morta. No início cogitou-se a hipótese de que tinha sido um suicídio, já que o corpo fora encontrado em meio às arvores com o revólver de Faustão na mão. Após o nascimento do filho de Ana, esposa de Faustão, foi descoberto que na verdade, Laura foi morta por Ana e o único a testemunhar o crime foi o bebê que ainda estava em seu ventre. Nasceu com uma marca semelhante a de um tiro com traços de sangue, igual a marca que havia co corpo de Laura após sua morte. A provável causa do assassinato foi o ciúme que Ana passou a ter de Laura, a partir do momento em que percebeu o interesse exagerado do marido pela sobrinha.
O décimo terceiro conto intitulado "Velha Praga" foi o primeiro conto escrito por Monteiro Lobato, extraído da sua indignação com os caboclos da região, que ateavam fogo nas terras, para, posteriormente, após as chuvas fazerem o plantio. Porém faz-se uma ressalva, o fogo empobreceria o solo, destruiria as aves silvestres e a mata nativa. O que o autor deixa transparecer é o preconceito para com os caboclos, denominando-os de "funesto parasita da terra". Toda essa indignação não estava relacionada com a preservação do meio ambiente, mas com a diminuição das terras férteis e produtíveis, fato que interessava os grandes fazendeiros, assim como ele.
Por fim, o décimo quarto conto intitulado "Urupês" faz florescer ainda mais o preconceito do autor para com os caboclos. Neste conto, o autor descreve uma de suas mais famosas personagens, Jeca Tatu, caracterizando-o como um caboclo preguiçoso e indiferente ao desenvolvimento do país, que possuía uma casa medíocre de pau-a-pique e trabalhava apenas para obter o seu sustento. Dentro deste contexto, o autor afirma que Jeca Tatu é "o sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço", deixando explícita a principal caracterização da personagem.
Vale ressaltar que, tendo sido Urupês lançado pela primeira vez em 1918, sendo uma edição ilustrada pelo próprio Monteiro Lobato, os contos Velha Praga e Urupês foram inseridos nesta obra, apenas na sua segunda edição.
Sendo assim, nesta grande série de contos, está presente a inovação da linguagem, sendo utilizada uma linguagem típica do interior de São Paulo; a exposição e caracterização do caboclo, mesmo que de forma equivocada e a descrição de um país, cheio de contrastes e desigualdades, pautado pela influência política e econômica.
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| Monteiro Lobato |
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Primeira edição do livro Urupês, ilustrada pelo próprio Monteiro Lobato
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| Jeca Tatu |